diário aberto



Gosto de fazer diários dos livros que escrevo. Estão todos espalhados, pela casa. Alguns perdidos. Outros, sempre à vista. Para reler, de vez em quando. De Cartográfico fiquei com vontade de colocar alguns fragmentos neste blog, enquanto não apronto o site do projeto.

*

Leda é a primeira.
O projeto se fará, em parte, na troca de cartas.
Porque sou delas, das cartas. Não dos e-mails, não das mensagens, definitivamente não dos telefones. Ainda que mantenha um outro blog desde... quando? Não me lembro mais. Sei que sou das palavras escritas à mão e sinto falta delas.
No caminho desse livro, trocarei cartas com pessoas feitas de muitas misturas, como eu. Pessoas que admiro, pessoas que gosto.

*

Cartográfico nasceu da vontade de falar de alguns lugares fronteiriços em mim. Meu pai tão japonês, minha mãe tão sertaneja. Mas como tenho problemas com projetos muito pessoais, reinventei um caminho para o livro que saísse de mim e cruzasse com outras pessoas. Feitas de misturas significativas, de buracos na pele, de fronteiras.
Leda é a primeira.

*

Conheci a Leda no Rio, quando lancei Matéria lá. Ela também fez Letras na USP, também Francês, mas não a conhecia. Soube dela pela Ju Bratfish, então, quando fui ao Rio, já sabia que a "Leda Cartum" estaria lançando seu livro também - inaugurando a livraria da 7Letras com a gente.
Seu As horas do dia foi o primeiro livro que peguei para folhear, dos muitos que levei para SP na mochila.

*

Naquele dia, trocamos dedicatórias diminutas em nossos livros.
Fiquei surpresa por Leda ser tão nova. Fui para São Paulo lendo seu livro (e tão atenta nele que nem me dei conta de que ela estava no mesmo ônibus que eu voltando para casa).

*

Anos depois, pensei nela para trocar nesse novo livro. Leda foi a primeira pessoa para quem escrevi falando de Cartográfico. Ela foi muito receptiva. Depois apareceu, sozinha e silenciosa, no lançamento de Cinematógrafo. Fiquei muito feliz quando a vi. Porque ela seria a primeira.

*

Hoje, ao caminho de um compromisso importante, tudo errado. Tudo. Então desviei meu caminho. De repente. Caminhei até um lugar em que pudesse olhar para um atalho. Entrei em uma livraria (claro) e achei, sem querer (querendo) o diário da avó da Leda. Comprei-o sem pestanejar e fui a uma padaria; queria começar a ler.
Pedi uma sopa; chovia, a cidade estava parada, eu não tinha mais pressa.
E eu li sua avó falar de Auschwitz. Depois li Leda falar da avó. Depois li sua mãe.

E pensei na minha mãe. Pensei em meu pai.

*

Segui lendo o diário no ônibus para casa.
Não pude disfarçar as lágrimas (que tão bem disfarço em público - tão japonesa que sou).
Quis escrever para ela. Quis lhe contar três histórias da infância da minha mãe.
Mas antes, esse diário. Farei isso no fim dessa semana. Quero escolher as palavras e, além disso, quero lhe mandar cópias dos poemas da Tamara Kamenszain - que ela disse que não conhecia - de presente.

*

Esqueci meus cadernos em casa, mas achei uma caneta na mochila. Na padaria, tendo uns relampejos eufóricos silenciosos lendo aquele livro, agarrei três guardanapos e escrevi que deveria ir ao sertão do Piauí com minha mãe. Conhecer o lugar onde minha avó nasceu.
Escrevi que neste sábado minha outra avó, a mãe espanhola do meu pai japonês, fará 91 anos.
Que há algo em mim, que carrego há tanto tempo, que precisa virar palavra. E que sem a Leda - e as outras dez pessoas convidadas a participar desse processo - será impossível.

*

"O que os cegos estão sonhando?", é o nome do livro que reúne o diário de Lili Jaffe, avó dela.
E é de uma beleza sem fundo.

(25 de fevereiro de 2015)


*


Cartográfico é o projeto de escritura de um livro de poemas que partiu do desejo de ocupar um espaço entre duas raízes distintas (e complementares) para estruturar uma voz poética: uma sertaneja, outra japonesa.
Falar de uma herança sem nome em um gesto que dê corpo à voz que, no livro, deverá seguir suas trilhas de origem - a imagem do silêncio do pai, a imagem da mãe no sertão - é central neste projeto, que deverá se contaminar de uma dicção limiar (que se dê no trânsito entre espaços tão aparentemente distintos). Este é o primeiro movimento do livro.
A esta espécie de ponto inicial de nossa cartografia, partiremos na direção de outras vozes, que falem de suas origens, e possam sugerir novos traçados no mapa que iremos percorrer. Para isso, dez convites foram distribuídos para dez pessoas, para que elas falem de suas heranças pessoais, suas histórias. É a partir desses depoimentos que a segunda parte do livro se criará.
Essas trocas estão sendo feitas por meio de cartas. Aqui registraremos essas trocas.
Cartográfico foi contemplado com um ProAC de Criação Literária em Poesia em 2014 para ser desenvolvido em 2015.

Nenhum comentário:

Postar um comentário